Vamos produzir, gente…

Não vou dizer que a cena não estava muito bonita. Inspiradora, até. Na praça, a manhã meio nublada ainda recendia a terra molhada. O murmurinho dos pássaros se movendo entre as árvores. Uma senhora de uniforme varrendo as folhas que caíram durante a noite. Um ou outro madrugador, fazendo sua caminhada matinal. Até que uma garota, usando um daqueles colants de academia e tênis Nike, enquanto iniciava o que parecia ser uma espécie de alongamento, resolveu puxar assunto com a mulher que varria o chão.

– É bom fazer um exercíciozinho logo de manhã, né?

– Pra senhora, pode até ser.

– Experimente dar uma respirada bem fundo, sshhhhhhhhhhaahhh… A gente se sente tão bem disposta, revigorada…

– Eu não me sinto revigorada coisíssima nenhuma. Eu me sinto é cansada. E se a senhora gosta tanto de fazer exercício de manhã, porque não pega essa vassoura e sai varrendo o jardim? Eu, da minha parte, preferia estar em casa, assistindo a Ana Maria Braga.

Não pude deixar de dar uma gargalhada. Veja bem. Não é que eu ache o programa da Ana Maria Braga a melhor coisa para se fazer numa manhã, e muito menos que a atração da Globo contribua culturalmente para a formação de nossos cidadãos. Mas aquela senhora falou uma coisa que eu sempre pensei em falar, e nunca tive coragem. Será que esse pessoal que fica aí, fazendo exercícios e caminhadas, não poderia usar toda essa disposição para fazer alguma coisa pelos outros? Por exemplo, em vez do cara ficar correndo em volta de uma praça, o que não tem serventia alguma, poderia muito bem ajudar o carteiro em suas entregas pela cidade. Ou então esses caras que vão para uma academia, levantar peso. E se eles passassem uma semana trabalhando como ajudante de pedreiro, em serviços voluntários para entidades assistenciais? Eles poderiam levantar sacos de cimento, tijolos e todas essas coisas pesadas que a gente tem de carregar daqui para lá quando está construindo ou reformando. Os caras ficariam saradinhos e, ao mesmo tempo, estariam fazendo sua parte pelo bem estar da sociedade. E aqueles que ficam horas e horas andando naquelas bicicletas que não saem do lugar, ou naquelas esteiras? Será que não dava, por exemplo, para ligar naquelas engrenagens um dínamo, um aparelhinho, sei lá, qualquer coisa que gerasse energia suficiente para, pelo menos, iluminar a sala ou ligar a televisão?

Por mim, eu criaria até uma lei. A partir de agora, exercitar-se à toa passa a ser considerado um crime grave e, se realizado na semana depois do carnaval, torna-se imediatamente inafiançável. Revogam-se as disposições em contrário.

Uma resposta

  1. Concordo! Atesto e dou fé! Reconheço em cartório, em três vias!

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