Como se divertir numa quarta-feira de cinzas

Outro problema do carnaval é a quarta-feira. A quarta-feira é um tormento para todo mundo, desde para o patrão quanto para os funcionários. Porque a firma precisa voltar a trabalhar, oras bolas, e está mais ou menos estipulado que, depois do almoço, todo mundo já deve estar ali, cumprindo seus compromissos e tudo o mais. Mas acontece que ninguém vai trabalhar na quarta-feira feliz. O pessoal desacostumou, entende? E a impressão generalizada entre todos é que os patrões podiam muito bem ter dado a quarta-feira inteira de folga também, ora essa, afinal, a gente se esforça tanto durante o ano, o que custava para a firma um meio dia a mais ou a menos? E o coitado do patrão fica ali, pagando o pato, vendo cara feia o dia inteiro, como se fosse ele o culpado por essa farra toda que se apodera do país nesses quatro dias.

Bem, o patrão não tem culpa nenhuma, essa é que é a verdade. Porque, se ele decretasse que a semana começaria na quinta-feira, todo mundo ia aparecer com a mesma cara feia, e cochichando que, já que a firma ficou até quarta-feira fechada, porque diabos voltar a trabalhar numa quinta-feira, se amanhã já é sexta, quase fim-de-semana, e não vai dar tempo é de fazer coisíssima nenhuma mesmo, ainda mais com essa ressaca toda que dá para ver na cara de todo mundo. Então, o patrão sai sempre como o bandido dessa história de carnaval, embora ele mesmo esteja com olheiras e a garganta irritada, tomando até própolis com limão para ver se a rouquidão melhora um pouco, e fazendo as contas no extrato do cartão de crédito tentando se lembrar onde diabos foi que ele gastou tudo aquilo.

Mas essas coisas só acontecem mesmo com quem gosta de carnaval. No meu caso, por exemplo, que estava fazendo até contagem regressiva para ver essa festa idiota acabar, voltar ao trabalho é quase uma revanche contra os meus colegas foliões. Enquanto eles chegam lá no escritório, todos de ressaca, fazendo fila em frente ao bebedor de água e à cafeteira, eu sempre chego muito disposto, sorridente e fagueiro, propondo reuniões de trabalho para o fim do expediente no intuito de discutir as novas alternativas de investimento nessa nova situação brasileira frente à economia global.  Faço isso porque é muito engraçado reparar na reação de cada um.

Teve uma vez, que até o patrão correu para o banheiro. O estômago não estava muito bom, ele disse ao sair, esfregando compulsivamente um lenço na testa suada.

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3 Respostas

  1. Essas suas crônicas rabugentas estão divertidíssimas…

    • uma coisa rabugenta não pode ser divertida, oras. preciso me aperfeiçoar mais nesse aspecto rabugentístico.

  2. Se você fosse só um rabugento, seria insuportável. E aí eu não te leria, né?

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