Quem é que disse que eu já fui hippie?

Não sei direito quando foi que isso começou. Mas, a maioria das coisas que eu sempre quis ser nessa droga de vida, e até umas coisas que eu fui e tinha orgulho de ser, acabaram se tornando quase um xingamento. Ou, em casos mais leves, uma espécie de gozação.

Outro dia desses mesmo, uns caras me chamaram de comunista. Eles falaram – E aí, Artur, você continua comunista? Ah Ah Ah Ah. Eu não sei direito o que eles acharam de tão engraçado nesse negócio, mas eles riram até escorrer lágrimas. Quer dizer, nos anos 70, ser comunista era um ato de coragem. Era até meio charmoso. Quando eu tinha dezessete anos, eu me lembro de ter falado que era comunista numa aula do cursinho, e falei bem alto, para todo mundo ouvir. Foi um deus nos acuda. Mas, na hora do intervalo, duas ou três garotas se encostaram perguntando se eu não queria ler “O Capital” no apartamento delas. E, agora, comunista virou gozação.

Do mesmo jeito que ser hippie. Para quem não é daquela época, os hippies só desejavam paz e amor. Ser hippie era ser livre. E, muito antes dessas reuniões todas da ONU sobre o clima, os hippies já pregavam a volta à natureza e lutavam por uma vida com menos consumismo e menos poluição. Bem, só para você ver como as coisas mudam, hoje em dia eu não posso deixar a minha barba crescer nem dois ou três dias, que sempre aparece um peão pra me falar – Ô Artur, vai fazer essa barba, tá parecendo até um daqueles hippies Ah Ah Ah Ah.

E por falar em barba, tem o negócio do PT também. Não faz muito tempo, qualquer sujeito antenado votava no PT. Ser do PT era uma atitude respeitada até pelos adversários, já que a sigla era sinônimo de honestidade e de solidariedade. E isso sem contar a inteligência. Todos os grandes intelectuais, por uma razão ou outra, ou eram do PT ou eram simpatizantes. Resumindo. Ser do PT significava, basicamente, ser honesto e intelectual. E hoje em dia… bem. Você sabe o que significa ser do PT para a maioria das pessoas hoje em dia.

Sobrou até, vejam vocês, para o Caetano Veloso. O Caetano sempre foi um dos meus maiores ídolos. Ele era tudo o que eu queria ser. Revolucionário. Romântico. Cabeludo. Andrógino. Politizado. Aí, num fim de semana desses, o Caetano apareceu no “Altas Horas”, da Globo, e minha sobrinha mais nova olhou pra mim e tascou:

– Ô Tio, quem é esse velhinho?

Eu, vagarosamente, olhei para o teto. E comecei a chorar.

There are no comments on this post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: