Sobre a evaporação dos seres humanos

O gostoso de escrever, eu acho, é que, querendo ou não, uma hora ou outra, a gente precisa parar para pensar. Não é todo mundo que arruma tempo para pensar. E nem eu, agora, estou com tempo. Tenho um milhão e meio de problemas para resolver. Problemas que, para falar a verdade, se eu não estivesse escrevendo, também não estaria resolvendo porcaria nenhuma. A gente fica mais é protelando. Protelar é um jeito que a gente arruma de não resolver o problema e nem de pensar sobre ele. A televisão é boa para se protelar. A gente fica ali, mudando de canal, olhando as imagens, e quando vê já é hora de dormir e a gente nem resolveu nada nem pensou muito sobre. Mas quando a gente senta para escrever, tem que pensar. Não dá para escrever sem pensar. Quer dizer. Até dá. Têm umas coisas que eu já escrevi por aí que eu vou te falar uma coisa. Se tivesse pensado mesmo, com afinco, não tinha escrito aquela bobagem. Mas são casos raros. Normalmente, antes de escrever, eu paro, olho bem para a tela do computador, e fico pensando numa maneira de preenchê-la com alguma coisa que tenha alguma serventia para a humanidade. Nem se for para causar um sorrisinho no canto da boca de alguém, uma informaçãozinha interessante para se comentar na mesa do bar, qualquer coisa assim. A gente fica ali, olhando para o Word aberto no computador, clica numas coisas, desclica, dá Ctrl+Z, levanta, acende um cigarro. E fica pensando nas coisas. É gostoso pensar. Hoje, antes de escrever essa crônica, por exemplo, eu estava pensando em quanta gente eu já conheci nessa vida. E de quantas eu nunca mais ouvi falar. A vida da gente é assim. Pessoas entram, pessoas saem. Às vezes, a gente está olhando para uma pessoa pela última vez na vida e nem sabe. Não, eu não estou falando de morte nem nada disso. As pessoas simplesmente se evaporam. Um dia são praticamente nossos melhores amigos, ou amigas, ou namoradas, ou colegas de trabalho, ou tios, ou primos. E, no outro dia, a gente não sabe mais nem em que cidade moram, o que estão fazendo da vida. E tem aqueles que a gente até esquece o nome. Quando eu tinha dezoito anos e cursava Arquitetura em Moji das Cruzes, eu morei numa república com quatro caras. Certo, eu lembro o nome deles, também não é assim. Arlindo, Adriano, Leandro e Pedro. Éramos, é claro, os melhores amigos do mundo. Inseparáveis. Traçávamos planos para o futuro. Só que hoje (no tal futuro) eu não consigo me lembrar nem do sobrenome deles. Eles sumiram por aí. Evaporaram.

O ser humano deve ser feito de algum material extremamente volátil. Evapora a toa, a toa.

Uma resposta

  1. Então é raro você falar bobagem, Artur…?

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