O que é que a gente faz com tanta foto?

Eu me lembro da primeira vez que eu peguei uma câmera fotográfica digital nas mãos. Era uma coisa bem obsoleta pelos padrões de hoje, evidentemente, mas, mesmo assim, eu me lembro dela como se fosse uma coisa de outro mundo.

– Quer dizer que a gente pode ficar tirando fotografia o quanto quiser?

– É.

– E depois, é só a gente escolher qual fotografia manda revelar?

– É.

– Mas que maravilha, hem? E as fotos ficam tão boas quanto as de filme?

– Bem, aí é um problema.

E era mesmo. As primeiras máquinas digitais eram uma verdadeira porcaria. Para você ver uma coisa, a primeira delas, desenvolvida pela Bell Labs em 1969, capturava imagens com uma resolução de 0,01 megapixels. Bem, mas é claro que não foi uma dessas que eu me lembro de ter pegado pela primeira vez. A que eu peguei era uma Sony, modelo Mavica, que capturava imagens com fantásticos 0,3 megapixels e custava algo em torno de US$ 12 mil. Fui apresentado a tal proeza tecnológica pelo pai de um amigo meu, no tempo que eu ainda morava em Campinas e tinha o estranho costume de frequentar a casa de alguns milionários. E ele me apresentou mais como um troféu do que por acreditar mesmo no futuro daquele treco.

– Nenhuma maquininha dessas vai conseguir competir com o velho e bom filme… – ele me disse, com os olhos no horizonte como gostam de fazer os visionários.

Bem. Ultimamente, além do preço ter despencado ladeira abaixo, as máquinas digitais tiram fotos de mais de 10 megapixels, e simplesmente não há mais diferença entre as revelações das câmeras digitais e das que ainda usam filme. Se é que ainda fabricam filmes.

O que nos coloca na seguinte situação. Hoje, nós podemos fazer quantas fotos e filmes quisermos e publicar isso praticamente a custo zero em blogs e comunidades na internet. O problema agora é o inacreditável número de imagens e filmes babacas que a gente tem de ficar trombando a toda hora. É só fazer uma pesquisazinha no youtube que você vai ver uma coisa. São imagens de gente fazendo careta, filminhos de festinhas familiares, uns tontos simulando danças engraçadas, uma bobajaiada sem tamanho que, antigamente, pelo menos ficavam bem escondidas dentro das gavetas. Tem gente que diz que isso é muito bom e que a memória dessa geração estará bastante documentada e poderá ser lembrada como nenhuma outra foi.

Eu, sinceramente, duvido muito que existam tantas coisas assim a serem lembradas. Para falar a verdade, a maioria das coisas eu venho é tentando esquecer.

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