Era da Comunicação uma ova

E dizer que antigamente se reclamava da televisão… Que ninguém mais conversava numa família, que agora ficava todo mundo na frente da TV sem prestar atenção em mais nada e tudo o mais. Os mais velhos reclamam disso desde que eu me conheço por gente. Que no tempo deles o pessoal colocava cadeiras na calçada e ficava conversando, contando histórias antigas e falando mal da vizinha. Mas que, agora, com essa tal de televisão, ninguém mais conversa numa casa. E, quando conversam, conversam sobre as coisas da televisão, sobre o assassinato da novela das sete e sobre o telejornal.

Depois, os pais da gente começaram a reclamar ainda mais, especialmente quando nós, os seus filhos, começamos a comer na sala, assistindo televisão. Que quando eles eram crianças a hora do almoço e da janta eram sagradas. Eram as únicas horas do dia que a família se reunia para falar um pouco sobre os acontecimentos da escola, do emprego. E que agora vai todo mundo para a sala ver televisão, engolindo tudo às garfadas e praticamente nem sentindo o gosto da comida. E era verdade mesmo. Eu sou de uma geração que cresceu na frente da TV, e nem me lembro mais quando foi que eu sentei com a família em torno de uma mesa para comer alguma coisa.

E agora, pelo visto, chegou a minha hora de reclamar. Vá lá. Se sentar na frente da TV com sua esposa sem praticamente trocar uma palavra durante umas quatro horas, com isso eu já estava mais ou menos acostumado. E quanto a comer na frente da TV, devo confessar que eu sou o primeiro a fazer o meu prato e ir direto para o sofá da sala, equilibrando um copo de suco de laranja numa mão e o prato na outra, para assistir algum desenho animado ou um telejornalzinho mostrando as últimas imagens das enchentes. Mas, como já dizia minha finada avó, as coisas sempre podem piorar um pouquinho.

Hoje, além do fim das refeições em família e do nosso silêncio frente ao poder hipnotizante da TV, o celular não pára de tocar. Eu estou ali, tentando conversar um pouco com minha filha, e ela enviando torpedinhos para as amigas. Tento puxar assunto com meu filho, e ele está no meio de uma caçada intergalática a dragões, pilotando seu playstation. E, enquanto isso, a minha mulher, que sempre foi mais clássica, continua assistindo as suas novelas da Globo.

De vez em quando eu fico pensando que, se eu morrer, minha família só vai se dar conta daqui uns dois ou três meses. E assim mesmo, pelo cheiro.

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