Hipoglós

Não existe coisa mais humilhante que uma dor de barriga. Existem doenças que têm até um certo charme. Como, por exemplo, um leve desvio de coluna, que nos obriga a andar de bengala, como um daqueles lordes ingleses do século passado. Ou então uma tendinite causada por uma LER, que faz com que você use uma daquelas luvas de couro que vão até mais ou menos o cotovelo, deixando bem claro que você é um cara ligado em novas tecnologias, modernoso. E até umas doenças mais graves, como uma pneumonia ou uma bronquite crônica, que sempre causa comentários a respeito de sua vida boêmia e tudo o mais.

Mas as dores de barriga não. Uma dor de barriga é absolutamente humilhante. Além de fazer com que você se levante de dois em dois minutos, tendo que dar explicações às pessoas com quem você está conversando, ainda tem aquela barulheira toda que a gente faz quando entra no banheiro, sons que eu, pessoalmente, tento disfarçar de todas as maneiras, seja abrindo as torneiras da pia, assobiando ou até mesmo ligando o chuveiro. Aliás, o chuveiro também pode ser usado para tentar dar uma amainada nos odores. É uma técnica que eu desenvolvi desde pequeno. Você pega, abre o chuveiro bem quente, para fazer aquela fumaceira, e coloca um sabonete embaixo, fazendo com que o vapor se torne levemente perfumado. Mas é claro que eu sei que essas são só medidas paliativas. No fundo, no fundo, na hora que abrimos a porta do banheiro, a gente tem certeza absoluta de que todos pararam de rir exatamente naquele momento.

Mas tudo isso não seria nada se não fossem as assaduras. A dor de barriga, os cheiros e os barulhos passam rápido, geralmente em um ou dois dias. Mas as assaduras ficam com a gente durante quase uma semana, nos obrigando a andar como se fôssemos o John Wayne num daquele filmes de faroeste, com as pernas meio abertas para tentar amenizar o atrito. A gente vai caminhando pelas ruas, e todo mundo que passa fica olhando para trás, imaginando o que diabos pode ter acontecido com aquele pobre coitado (no caso, eu) para ficar andando daquele jeito. E tem mais…

– Querido, você quer ir no médico?

– Não.

– O que é que você quer que eu faça, então?

– Vê se acha aquela pomadinha do nenê pra mim.

– Qual pomada?

– Aquela, branca.

– Hipoglós?

– É, é, hipoglós. Tá rindo do quê?

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: