O cara que gostava de ver sangue

Agora, me fala aí. Quem é que gosta de ver sangue? Se você é uma pessoa normal, e não é um vampiro, nem nada dessas coisas, deveria responder: ninguém gosta.

Ou então, vá lá, mudemos a pergunta. Vamos dizer que sua filha de quinze anos comece a namorar um cara de dezoito anos, um cara até que bem apessoado, que usa camiseta pólo da Lacoste e calça jeans com tênis Nyke, quer dizer, um rapaz aparentemente decente e bem educado. Por via das dúvidas, um dia você resolve conhecê-lo melhor e o convida para almoçar na sua casa, para conversar um pouco, saber sobre os seus gostos profissionais ou culturais, e, para começar a conversa num tom mais ameno, você chega e pergunta para ele o que ele gosta de ver na televisão. E ele te responde:

– Sangue.

Você acha que não ouviu direito, e pergunta de novo, e ele reafirma. Ele gosta mesmo de ver sangue. Ele passa todo o tempo zapeando os canais da TV a cabo atrás de filmes de guerra, de lutas de vale-tudo ou de boxe, de séries sobre hospitais ou de delegacias de polícia, ou até mesmo atrás de uns canais de notícia especializados em crimes hediondos.

– Contanto que tenha bastante sangue.

Agora, mesmo se esse cara tenha um bom emprego, uma família religiosa e trabalhadora e tudo o mais, você ficaria tranquilo sabendo que sua filha anda por aí, para cima e para baixo, namorando um cara que gosta de ver sangue? Pois não ficaria. Eu, pelo menos, não. Um cara que gosta de ver sangue, para mim, tem algum tipo de desvio psicológico grave, e precisa é de tratamento. Não pode ficar por aí, solto, como se fosse o cara mais normal do mundo.

Então, me diga aí uma outra coisa. Por que diabos esses caras das TVs, dos jornais e das revistas não param de mostrar essas imagens daquele monte de gente morta lá no Haiti? Tudo bem. É claro que eu também estou com pena do haitianos, e até já fiz uma contribuição para ajudar o país pelo site dos “Médicos Sem Fronteiras” http://www.msf.org.br. Mas isso não quer dizer que eu queira ficar vendo, de cinco em cinco minutos, uma pilha de corpos ensanguentados. Até mesmo porque não adianta nada. Se eles usassem esse espaço para divulgar como cada um pode ajudar no que lhe for possível, seria muito mais útil.

Mas não. A imprensa insiste em tratar a população como se fôssemos um bando de bárbaros sedentos por sangue. Bem, nós não somos isso.

Pelo menos, eu não sou.

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