As férias do Veríssimo

Um dos problemas de se escrever para o blog é que não dá para fugir de certos assuntos.

Eu me lembro de uma vez que o Luis Fernando Veríssimo precisou fazer uma viagem urgente e, para isso, tirou uns dias de folga do “Estadão” onde, diariamente, escrevia uma coluna. Geralmente, o Veríssimo falava de assuntos bem atualizados, comentando as notícias do dia anterior, sempre daquele seu jeito bem-humorado e fácil de ler que fez de sua coluna uma das mais lidas da imprensa brasileira. Acontece que, como esses dias de folga não coincidiam com suas férias anuais, o Veríssimo resolveu que deixaria umas colunas prontas, atemporais, e que poderiam ser publicadas em qualquer época que não haveria problema algum.

Então ele escreveu umas cinco, seis crônicas, uma falando de um encontro com uma ex-namorada, outra sobre seu cachorrinho, uma outra sobre sua sogra e ainda outra sobre o encontro de alguns amigos num bar. Coisas assim. Entregou as crônicas no jornal, explicou que era para ir publicando enquanto ele não voltasse, e saiu de viagem. Não haveria problema algum, e o fato do Veríssimo estar de folga passaria até mesmo despercebido pelo grande público, se não fosse o dia em que ele saiu de viagem. Dia 10 de setembro de 2001.

Não sei se a data faz você lembrar-se de alguma coisa, mas o dia seguinte certamente sim. No dia 11 de setembro de 2001, dois aviões estatelaram-se contra as Torres Gêmeas de Nova York, matando milhares de pessoas no maior atentado terrorista de nossa época.

E aí aconteceu o seguinte. Enquanto todos os jornalistas do mundo escreviam sobre a tragédia, o Veríssimo escreveu sobre a ex-namorada. No outro dia, sobre seu cachorrinho. E no outro, sobre sua sogra. Começaram a chegar cartas no “Estadão”, pedindo explicações. Onde já se viu uma coisa dessas? O mundo ali, à beira do caos, e o maior colunista do jornal escrevendo sobre amigos num boteco?

A explicação era simples. Por coincidência, o Veríssimo estava em Manhattan justamente naquele dia, e ficou tão “passado” com os acontecimentos que simplesmente se esqueceu das crônicas deixadas para trás. Quando encontrado pelos editores, precisou escrever uma nota de esclarecimento, explicando para seus leitores tudo isso que eu contei aqui.

O que eu estou querendo dizer é que não dá para eu fazer de conta que não aconteceu um terremoto no Haiti. Ele aconteceu.

Eu só não sei direito o que escrever sobre isso.

Uma resposta

  1. É pena, que eu não tivesse sabido antes, disso aqui, isso tudo.

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