Vamos partir para a porrada?

Minha geração é composta de um bando de esquizofrênicos, com problemas de dupla personalidade. Para você entender melhor esse meu diagnóstico um tanto quanto fatalista e generalizante, basta lembrar que a primeira coisa que a gente fazia quando mudava para uma casa, no tempo da faculdade, era pendurar na parede um pôster do Gandhi e outro do Che Guevara. Só por aí, já dá para ver que a gente nunca soube direito o que queria da vida. E tinha gente que pendurava outros pôsteres também, todos eles beirando a demência completa e irreversível. Já cheguei até a ver uma casa, uma vez, que tinha um pôster do Marx lado a lado com um da Farrah Fawcett. Quer dizer. Era uma mistureira dos infernos, mais ou menos um espelho do que acontecia na nossa cabeça. Ao mesmo tempo em que a gente tinha heróis que pegavam em armas para depor o regime militar, como o Fernando Gabeira, a gente também tinha heróis que pregavam a paz e o bissexualismo, como o… o Fernando Gabeira.

Então, quando eu vejo uns caras atacarem fisicamente uns políticos, eu não sei direito o que pensar.  Naquela vez que um cara tacou um sapato no Bush, tudo bem, deu para dar umas risadas pelo inusitado da situação. Afinal, não é todo dia que um político é atacado com um sapato, e também não é todo dia que a gente vê um bobalhão na presidência da maior potência militar do planeta. Além disso, ninguém acabou ferido, e não se viu sangue, e nem olhos roxos, e nem nada dessas coisas.

Mas agora, com essa do premiê italiano Silvio Berlusconi, foi diferente. O cara, que, aliás,  não é nenhum bobalhão nem um ditadorzinho que tomou o poder à força, levou uma bordoada que podia ter matado. Atingido por uma estátua de metal, ele sofreu uma fratura no nariz, teve dois dentes quebrados e ficou com os lábios cortados de tal maneira que, nas fotos, parecia que ele tinha sido atropelado por um trator dirigido pelo Mike Tyson.

E é aí que aquele nosso lado meio esquizofrênico vem à tona. Ao mesmo tempo que a gente acha que devia começar a fazer o mesmo com todos os nossos políticos corruptos, a gente também acha um absurdo acontecer uma coisa dessas nos dias de hoje, e que isso é coisa de selvagens sem noções de civilização.

Eu, da minha parte, acho que um sustinho de vez em quando não faz mal para ninguém. Tudo bem. Não precisava ser uma estátua de ferro. Mas uma de gesso, sei lá, não deve causar tanto estrago assim, deve?

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