Ratos suicidas

Quando a gente reclama da chuva que não pára de cair, os mais velhos sempre fazem aquela cara de desaprovação e dizem que “chuva é sinônimo de vida”, que a gente tem de agradecer por estar chovendo e tudo o mais. E quando eu digo “mais velhos”, estou me incluindo aí, é claro. No meu tempo de moleque, aliás, toda vez que chegava a época das chuvas, era quase uma festa. Para você entender melhor o que eu estou querendo dizer, basta citar que, nas escolas comemorava-se a primavera como se comemora, hoje, o lançamento de uma nova versão do orkut ou algo assim. As professoras pediam para a gente desenhar nos cadernos de “Educação Artística” as flores que estavam nascendo por causa das chuvas. Para pintar os campos cheios de milho e café (é, naquele tempo plantava-se muito milho e café, e São Paulo não era, ainda, esse imenso canavial).

Enfim, a chuva sempre foi uma espécie de marco divisório entre uma época de muita necessidade e carência para um tempo de fartura e felicidade.

Mas, como dizem (também desde aqueles tempos), as coisas mudam. Hoje, antes de sair de casa, não tem um que não dê uma olhadinha para o céu e, em algumas cidades, a simples presença de uma nuvem um pouco mais negra no horizonte já causa arrepios.

Em São Paulo, por exemplo, de acordo com a Defesa Civil, pelo menos 400 famílias tiveram que deixar suas casas por causa das últimas chuvas. As avenidas marginais viraram um verdadeiro rio e um monte de gente nem tentou ir trabalhar. Algumas até morreram. E isso não acontece só nessas enormes megalópoles, não. Em Rio Preto mesmo, outro dia desses, um salvamento espetacular no meio da enxurrada saiu até no Fantástico. E, tudo isso, por quê? É porque tem chovido mais que antigamente? Não. É porque alguma represa se rompeu? Não. É porque o sistema de drenagem foi mal planejado? Também não. Essas enxurradas acontecem, simplesmente, por causa do lixo que a gente joga na rua e que acaba entupindo os bueiros.

Todo ano, o pessoal avisa que, se a gente não parar de jogar lixo na rua, vai ter o mesmo problema, e a gente continua jogando cigarro, embrulhos de bala e saquinhos de salgadinhos no meio da rua, como se não fosse com a gente. Para mim, a humanidade já está começando a parecer um bando de Lemingues.

E, para quem não sabe, Lemingues são aqueles pequenos roedores que, quando migram em bando, muitas vezes se suicidam saltando abaixo de penhascos.

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