A Entrevista

Não sei bem o porquê, mas volta e meia aparece um estudante querendo me entrevistar. É uma coisa que sempre me deixa nervoso esse negócio de entrevista, mas sempre que dá, eu tento aceitar o convite. Afinal de contas, tem muita gente que paga caro para um psicólogo ou um psicanalista passar uma hora ali, ouvindo suas queixas e opiniões, e esses entrevistadores fazem isso por mim, na varanda de minha própria casa e, o melhor de tudo: totalmente de graça!

Outra parte boa desse negócio de dar entrevista sobre a gente mesmo é que, normalmente, a primeira pergunta a gente sempre acerta. Isso porque os caras, invariavelmente, começam perguntando o nosso nome completo e onde a gente nasceu, dados que, geralmente, eu tenho ali, na ponta da língua. Alguns, mais indiscretos, perguntam também nossa idade, o que, dependendo de nosso estado de ânimo pode causar alguma confusão, mas que também não deixa de ser uma pergunta bastante simples, e uma rápida conferida em nosso RG já basta para tirar qualquer dúvida a respeito.

A partir daí, as coisas costumam ficar um pouco mais complicadas. Depois do nome, idade e local de nascimento, eles querem saber quando foi que eu comecei a escrever para o jornal, fator importantíssimo para o sucesso da entrevista, já que foi só por causa disso que ele veio me entrevistar. Acontece que aí as lembranças ficam meio turvas. São coisas que aconteceram há quinze, vinte anos, entende? E coisas que aconteceram há quinze ou vinte anos começam a se misturar com as coisas que a gente foi inventando durante a vida, e com as coisas que lemos por aí, e com as coisas que gostaríamos de ter feito e não fizemos. E aí eu respondo que escrevo para o jornal já faz aí uns vinte anos, mas não com tanta certeza como quando ele perguntou o meu nome, a minha idade e a cidade em que eu nasci.

Nesse momento, quase sempre eu me levanto e digo que vou tomar um copo d’água. Ofereço um copo d’água para o entrevistador também. É um momento de folga, entende? Um tempinho para ambos recolocarmos nossas cabeças nos seus devidos lugares.

E aí vem o final da entrevista, na qual o entrevistador sempre pergunta onde é que eu arrumo assunto para tantas crônicas. E é quando eu respondo que é só prestar atenção à sua volta. Que, num momento que você está sem assunto, qualquer coisa pode virar uma crônica. Sua mãe cozinhando. O apagão. Seu netinho jogando bola.

– E até mesmo essa entrevista, entende?

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