É por causa dessas coisas que eu mudei pro interior

Sabe essas bolas grandes, que geralmente são dadas como prêmios em parques, mas que também podem ser compradas a preço de um pastel nas feiras? Pois então. Elas são quase tão leves quanto as bexigas, e qualquer chute de uma criancinha de dois anos manda a danada para as alturas. Pois foi isso que aconteceu nesse domingo à tarde, com umas crianças que brincavam em frente de casa. Elas jogavam essa bola para cá, jogavam essa bola para lá e, tirando os gritos de “olha o carro” que a mãe deles soltava toda hora que via um carro a menos de três quadras de distância, tudo ia muito bem. Até que, num tremendo de um sem pulo, digno de um daqueles que o Roberto Carlos dava quando estava no auge de sua forma, uma das crianças disparou a bola para cima de uma árvore. As crianças imediatamente começaram a catar umas pedras, no que foram contidas pela mãe. Não demorou muito para que um vizinho se aproximasse e, com as mãos na cintura, decretasse:
– É, essa não sai mais daí não…
O que causou um certo rebuliço entre as crianças, em especial com o mais novo, dono do poderoso chute que mandou a bola para as estrelas, mas que agora se enrolava nas pernas da mãe, fazendo biquinho e já esboçando um início de choro. A avó surgiu de dentro da casa com uma vassoura, sendo praticamente ovacionada pela criançada. Mas, ao perceberem que mesmo na ponta do pé e com os braços estendidos, a vassoura da avó não alcançava nem a metade do caminho, voltaram a desanimar, e dois deles se sentaram na calçada, discutindo sobre qual deles tinha tido a idéia idiota de brincar com o irmão mais novo. Aí surgiu outro vizinho. Carregando uma escada.
– Todo mundo para lá que o tio aqui vai pegar a bola.
O problema é que o diabo da escada não era daquelas de abrir, que a gente usa para trocar lâmpadas em casa. A escada era daquelas normais, que precisam de um apoio. E não tinha apoio nenhum, a não ser o tronco da árvore que, no entanto, ficava muito longe do galho em que a bola tinha se alojado. Aí eles olharam para mim.
– Ô Artur, vem cá um pouco…
E a coisa ficou mais ou menos assim. Enquanto, de um lado, o vizinho ia subindo, glorioso, eu, aqui embaixo, suando em bicas, tentava suportar o peso do homem e da escada da melhor maneira possível. Quando eu já estava quase tendo um enfarte, finalmente ele chegou lá em cima e, com a vassoura da avó, deu uma cutucada na bola que se soltou, caiu e saiu quicando pela rua, com a criançada correndo atrás. O vizinho pegou sua escada e, trinfante, foi embora. Eu voltei para a minha varanda.
E a mãe gritou “olha o carro!”.

Uma resposta

  1. Que saudade Artur, isso é tipico do interior mesmo. Molecada na rua, tiazinha na calçada, e se acontece alguma coisa a vizinhança está pronta pra ajudar.. rsrs
    Ótima crônica.
    Abraços

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