Lei anti-fumo: o efeito colateral

Uma das coisas boas desse negócio de não poder mais fumar dentro dos estabelecimentos comerciais, dos prédios e dos condomínios, é que a gente agora começou a ficar mais tempo nas calçadas, sem nada para fazer. Quer dizer, quando eu digo “a gente”, estou querendo dizer “nós, os fumantes”. Pode reparar. Tem hora que, debaixo dos prédios comerciais, junta tanto fumante que fica parecendo que a gente está em Londres, de tão esfumaçado que fica. Mas, além dessa parte ruim, tem hora que aquele ambiente também fica parecendo aqueles cenários antigos, de cidade do interior, quando os nossos avós colocavam cadeiras nas calçadas para comer uns petiscos e jogar um pouco de conversa fora.
É claro, também, que o ambiente que a gente encontra agora não é mais tão saudável quanto o de antigamente. Afinal, são todos fumantes. Mas o astral continua mais ou menos o mesmo. A gente fica falando da vida alheia, dos anos que passam, faz planos para o futuro, encontra amigos antigos, faz novas amizades, de vez em quando até fecha um negócio. Mas, sobretudo, a gente fica vendo como são ridículas todas aquelas pessoas andando apressadas, indo ou vindo de algum lugar, a maioria delas com um celular numa mão e uma pasta cheia de papéis na outra.
Para falar a verdade, ficar ali, aqueles cinco, dez minutos, todos os dias, sem nada para fazer além de observar o movimento, tem me trazido uma grande paz de espírito, efeito colateral que o José Serra jamais poderia ter imaginado que iria causar quando decretou essa lei idiota. Agora, muito mais que para fumar, eu aguardo ansiosamente aqueles momentos de paz e tranquilidade para recolocar minhas idéias em ordem. Para pensar a respeito da vida. Para dar uma “respirada”, se é que se pode falar assim.
Depois dessa nova lei do cigarro, para ser sincero, eu passei até a fumar mais, só para curtir aqueles momentos de devaneios solitários, que tanta falta nos fazem na correria do dia-a-dia e…
– Tudo bem, tudo bem… Pode descer para fumar de novo. Mas só dessa vez, ok?
– Tudo bem, chefinho. Você é um anjo!
– Vai andando, vai… E me traz um salgadinho aí do boteco.
– Uma coxinha tá bom?
– Tá. E traz uma coca dois litros aí pro pessoal.

3 Respostas

  1. […] Lei anti-fumo: o efeito colateral « Artur de Carvalho arturdecarvalho.wordpress.com/2009/10/20/lei-anti-fumo-o-efeito-colateral – view page – cached Uma das coisas boas desse negócio de não poder mais fumar dentro dos estabelecimentos comerciais, dos prédios e dos condomínios, é que a gente agora começou a ficar mais tempo nas calçadas,… (Read more)Uma das coisas boas desse negócio de não poder mais fumar dentro dos estabelecimentos comerciais, dos prédios e dos condomínios, é que a gente agora começou a ficar mais tempo nas calçadas, sem nada para fazer. Quer dizer, quando eu digo “a gente”, estou querendo dizer “nós, os fumantes”. (Read less) — From the page […]

  2. Gostei bastante do texto Arthur, mas tenho algo para complementar. Nas baladas as pessoas que fumam tem que sair para rua pra fumar, e ficam num pequeno cubículo no meio da calçada.
    Elas dizem: “O pior de tudo é que você enfrenta meia hora de fila para fumar um maldito cigarro, e quando se chega lá fora para fumar, o único assunto que se conversa é sobre a demora na fila, além do que tem um segurança dizendo na tua orelha para fumar logo. Isso é quase desumano.”
    HUAHauhauHuh

  3. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by leticiamolinari: RT @rodrigoacetose: O efeito colateral da lei antifumo de um fumante http://migre.me/9xZ3

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